domingo, 15 de dezembro de 2013

#315: Última semana de aulas

Ok, faz tempo que não escrevo aqui.

Eu poderia culpar a falta de tempo ou a falta de acontecimentos marcantes, mas a verdade é que deu preguiça mesmo. E acho que neste segundo semestre em Surrey eu finalmente entrei no ritmo da vida aqui, tudo começou a se encaixar, eu comecei a sentir que faço parte daqui. Então falar das minhas experiências começou a parecer banal.

Por exemplo, desde que mudei para o prédio novo, com a lavanderia ao lado, lavar roupas deixou de ser um desafio. E o frio me dá tanta vontade de comer que aprendi novas receitas como estrogonofe de camarão, macarrão com molho de tomate e sardinhas, frango à parmegiana, e incrementei alguns dos meus pratos de sempre com mais temperos - alcaparras agora são indispensáveis quando faço spaghetti ou peixe. Também aprendi novas receitas de doce, como torta de framboesa. Então posso dizer que estou comendo melhor, pelo menos no quesito sabor.

Outra coisa que melhorou com o novo prédio foi que fico menos sozinha, pois meus amigos estão a algumas portas ou a um lance de escadas de distância, então fica fácil comer junto, ver filme, ou só bater papo a qualquer hora do dia. Mas ainda tenho meus momentos de solidão, que são necessários pra eu me concentrar nos meus estudos e pra recarregar as energias que perco quando fico muito tempo perto de pessoas. Socializar muito me cansa. 

Mesmo sem ter muitos desafios para narrar, sinto que eu não poderia simplesmente abandonar o blog assim, agora que estou tão próxima do fim, sem nem tentar chegar no 365º dia. Então vou fazer um resumo dos últimos três meses e continuar de onde estou agora.

Desde setembro eu:

- Viajei para Edimburgo e me apaixonei pela cidade
- Recebi a visita da minha mãe, realizamos nosso sonho de irmos juntas para Paris e o meu sonho de ir à Disney (a EuroDisney)
- As aulas recomeçaram e eu consegui escolher só matérias legais, e pela primeira vez fazer todas as aulas junto com minhas colegas de curso J e C. As matérias são: Documentary Film Practice, Creative Writing Professional Practice, Arts and Society, Advanced Screenwriting.
- Visitei meu amigo Alexandre, um CsF da leva de setembro, em Leeds.
- Fiz uma breve visita à Oxford, tão breve que merece repeteco.
- Assisti uma peça de teatro em Londres com Rupert Grint no elenco
- Fiz o Harry Potter Studio Tour, nos estúdios da Warner Bros, onde estão em exibição grande parte dos cenários, figurinos, objetos de cena e muito mais utilizados nos filmes de Harry Potter

De volta ao presente.

Esta é minha última semana de aulas, de um período que tem sido bem mais tranquilo que o meu primeiro aqui. Talvez seja porque eu finalmente entendi como funciona o sistema de ensino daqui, ou talvez porque minhas matérias sejam mais interessantes, mas estou conseguindo levar com muito mais dedicação. 

Eu, J e C  estamos filmando um documentário sobre identidade nacional e isso é o que tem dado mais trabalho, encontrar pessoas dispostas a serem entrevistadas e com tempo para tal, mas estamos finalmente chegando na etapa final.

Na matéria de Arts and Society fiz uma análise crítica sobre uma propaganda que foi elogiada pela professora e tirei 83/100, minha maior nota em trabalhos até agora - lembrando que no sistema britânico tirar de 80 pra cima é excelente, e o comum, por mais que você se esforce, é tirar entre 60-79. Não sou gênio nem nada, acontece que o tema que estamos estudando nessa aula eu já estudei bastante na UFF - semiótica, análise de discurso. Mas ainda assim considero uma pequena vitória, pelo menos meu histórico escolar daqui vai estar condizente com as minhas notas da UFF, mesmo que as notas daqui e de lá tenham pesos bem diferentes.

Como eu disse, esta é a última semana. A partir de sexta entramos de férias e o período só retorna no dia 13 de janeiro, mas não teremos mais aulas, só trabalhos para entregar.

Minhas férias já estão planejadas a bastante tempo. Vou passar o Natal no interior de Portugal e o ano novo em Sevilha, com meus amigos Luísa, Alexandre, Bernardo e Olof, esses dois últimos que vem do Brasil especialmente para nos encontrar. Estou bastante animada e feliz de poder passar as festas com amigos tão queridos, amigos com quem socializar não me consome tanta energia. Quase uma segunda família.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

#288: O inverno está chegando

Ok, ainda estamos no meio do outono. 

Mas os dias estão gradualmente mais frios, mais nublados, mais curtos - o horário de verão acabou -, há todo um clima melancólico e gloomy no ar. 

De repente a vontade de ficar debaixo das cobertas se entupindo de chocolate e assistindo seriados parece algo insuperável e só de pensar em todas as camadas que você precisa vestir pra sair de casa você já perde o ânimo de sair. E o pior é que essas camadas nem adiantam muito porque o vento gélido atravessa seus ossos e invade suas narinas tornando impossível para qualquer um se manter saudável por duas semanas seguidas - comece a estocar lenços de papel.

E esse é só o começo; ainda vai piorar.

É difícil ser otimista em dias gelados.

Por outro lado, o outono tem se mostrado a estação do ano mais bonita de todas. Eu nunca fui muito fã de folhas amareladas, mas é difícil não se encantar com as árvores multi-coloridas - amarelas, laranjas, vermelhas, marrons, algumas ainda verdes. Os dias cinzentos ganham vida com os tapetes de folhas e as janelas parecem emoldurar pinturas naturalistas. E se por acaso fizer sol, com direito a céu azul celeste, passar o dia fora de casa é indispensável, mesmo que os raios de sol sejam tão efetivos quanto luzes frias no quesito aquecimento.

O outono me ganhou, mesmo quando me faz querer dormir o dia inteiro e acabar com todo o estoque de chocolate da minha dispensa. Mas pra quê servem os dias frios de descanso se não para fazer justamente isso?

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

#217: Dia de Mudança

... E eu vivi a última semana do verão sem me dar conta de que seria a última. Que lástima.

Na quarta-feira (03/09), os estudantes do CsF apresentaram seus pôsteres sobre os estágios realizados nas férias. Foi um evento bem legal, com direito à presença da embaixadora do Brasil no Reino Unido, café da manhã e almoço no restaurante chique da universidade e apresentação de piano do único aluno de música dessa leva do CsF. Também foi um dia de despedidas, porque alguns dos veteranos (pessoal que chegou em setembro passado) já estavam de malas prontas e aquela seria a última chance de ter a turma toda reunida. Despedidas são sempre tristes, mas o que fica são as lembranças dos bons momentos - e sempre dá pra encontrar de novo no Brasil.

No mesmo dia, à noite, viajei para Amsterdam para estar novamente na companhia da Luísa, e agora também do Alexandre, outro amigo de Niterói e mais novo CsF do Reino Unido, mas numa universidade diferente. A passagem de Amsterdam foi curta, mas os últimos suspiros do verão serviram pra apagar um pouco a primeira impressão gelada da cidade.

Chegando de volta à Guildford no sábado, com Alexandre a tiracolo, constatei que o verão tinha, infelizmente, terminado de vez. O fim de semana foi só frio e chuva e nublado, e hoje não foi diferente. Hoje, o dia em que marquei pra fazer minha mudança de quarto. Mas primeiro uma explicação.

Todos os alunos de Surrey que moram em alojamentos se mudam em setembro, porque é quando o ano letivo começa oficialmente (embora as aulas só comecem um mês depois). Todo ano, quem mora em alojamento tem que mudar de quarto, flat, porque novos alunos chegam e eles precisam reacomodar todo mundo. Mas todo aluno tem direito a um ano em seu quarto. A minha leva de CsF chegou em janeiro, no meio do ano letivo deles. Nós já nos mudamos numa época diferente, em que a universidade não está exatamente acostumada a receber gente. Da mesma forma, eles não estão acostumados a deixar que ninguém permaneça em seus quartos depois de setembro. Em setembro, você estando aqui há um ano ou seis meses, tem que mudar. Sem discussão - e olha que tivemos muitas. Por fim, a universidade concordou em nos deixar escolher a data em que íamos nos mudar, dentro de um período de duas semanas, o que já é flexibilidade demais pra esses ingleses.

Outro detalhe: todos os brasileiros foram reacomodados em dois prédios, um ao lado do outro. Cada brasileiro está com pelo menos mais um conterrâneo em seu flat de sete quartos. Essa proximidade toda é boa e ruim, mas vou tentar ver só como boa. 

Acordei cedo e mesmo com a chuva fina e fria caindo lá fora, não desanimei (até porque o dia da mudança estava marcado pra hoje, não podia mais mudar). Peguei a chave do novo quarto, catei um carrinho de supermercado perdido no campus e tratei de carregá-lo com as malas e bolsas e caixas que tinha empacotado na noite seguinte. Fiz minha mudança sozinha, num total de seis viagens. Só pedi ajuda para um vizinho brasileiro (o lado bom de morarmos todos juntos) descer com minhas duas malas pesadas, mas dei conta de todo o resto. Roupas, sapatos, quinquilharias do quarto, bolsas, ventilador, livros, dvds, eletrônicos em geral, coisas de banheiro, coisas de cozinha, incluindo comidas, tudo. Foi a primeira mudança em que eu realmente participei (quando mudei de apartamento com minha mãe eu era bem mais nova e ela fez tudo sozinha). Me senti tão adulta.

O quarto novo é exatamente igual o antigo, para meu alívio: os móveis estão exatamente na mesma posição de antes, não vou ter que me habituar a uma nova disposição (I'm a freak, I know). Mas tem algumas vantagens, como interruptor ao lado da cama - não mais apagar a luz e tatear a cama no escuro ou usar a luz do poste como guia -, azulejos no banheiro, e o melhor de tudo, o novo prédio tem elevador. Minha mudança solitária, aliás, só foi possível porque eu não tive que subir com minhas tralhas de escada. Pra completar, o prédio é quase ao lado da lavanderia, o que minimiza bastante a minha preguiça de ir lavar roupa.

Neste mês, não tenho muita coisa programada pra fazer. Estou à espera da minha mãe que vem me visitar no fim de setembro; e à espera das aulas que recomeçam em 7 de outubro. Até lá, a chuva do outono e minha pequena pilha de livros deve me fazer companhia.

domingo, 1 de setembro de 2013

#209: Férias de outono

Depois de dois meses, meu estágio na Boko Creative terminou. Fiquei triste, eu estava gostando muito de trabalhar lá. Mas consegui manter boas relações com o pessoal e eles disseram que vão me manter informada dos projetos em que eu estava trabalhando, e que ainda posso opinar e ajudar à distância, o que é ótimo.

Então sexta-feira foi meu último dia de trabalho, o que significa que tenho setembro inteiro de férias - as aulas só começam em 7 de outubro. Eu ainda vou precisar fazer uma apresentação na universidade, junto com os outros alunos do CsF, sobre como foi meu estágio, o que aprendi, etc, no dia 4 de setembro. Depois disso, vou visitar minha amiga Luísa em Amsterdam por 4 dias e quando voltar, vou me mudar de flat, assim como todos os os outros brasileiros. Fomos todos realocados para dois prédios, ou seja, estaremos mais unidos do que nunca - não digo que isso é bom nem ruim. O lado bom da mudança é que tudo indica que os novos prédios tem elevador, um upgrade pra mim. O lado é ruim é que eu não estarei mais tão perto do ponto de ônibus...

O verão começa a dar sinais de que está chegando ao fim. As temperaturas começaram a baixar, embora ainda tenhamos dias de 20 e poucos graus. Mas muitas árvores já começaram a perder as folhas e os dias estão encurtando, às 20h já está ficando escuro (diferente do início do verão que
às 22h ainda tinha sol).

Estou ansiosa pra ver como é um outono de verdade, mas já estou temendo o frio que virá com ele e que só vai me deixar em fevereiro, quando eu voltar para o verão escaldante do Rio.

Mas por enquanto, vou curtindo meus últimos dias de verão.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Cruzando o Canal da Mancha, Parte II (18/08/13)

Na volta, precisei esperar um bom tempo no porto antes de embarcar. Eu tinha deixado a minha amiga no trem de 12:59 e o meu ferry só partia às 16:30. Aproveitei pra fazer um almoço na lanchonete do porto, que infelizmente não oferecia opções muito saborosas. Comi o pior cheeseburguer da minha vida (claro que os franceses não são bons nisso), mas a taça de vinho Côte du Rhone compensou - me poupem das críticas quanto ao pecado cometido de misturar fast food com vinho.

Finalmente chegou a hora do embarque, e eu estava ansiosa para saber como seriam minhas acomodações. Eu não tinha conseguido reservar a cadeira reclinável para a volta, acabei ficando com a cabine. E que cabine. Era pequena, porque era só pra duas pessoas; mas bem equipada. Tinha um sofá, que, puxando o encosto para baixo, revelava uma cama; uma segunda cama que podia ser puxada do teto; travesseiros, rádio, uma mini penteadeira (um espelho, uma mesinha e uma banqueta) e para minha surpresa, um banheiro. Com sabonete, toalha e até chuveiro. Numa viagem de apenas 5 horas. Me senti muito mimada.

O chato é que a cabine não tinha escotilha, então eu me senti bastante isolada ali. Tentei tirar um cochilo, não consegui. Li alguns capítulos do meu livro, comi metade de um dos meus camembert; por fim, encontrei uma passagem para o deck superior, e fui explorar como era o deck de um navio.

Minha primeira sensação foi: Titanic me enganou. Sabe aquelas cenas em que a Rose passeia pelo deck do Titanic, cheia de classe com cachos perfeitos e chapéu equilibrado na cabeça? Pois eu tive que me segurar muito bem nas grades e corrimãos e tentar ficar nas pontas do deck, porque o vento era tão forte que eu tinha medo que ele me derrubasse. Até tinha algumas pessoas deitadas em espreguiçadeiras lendo livros e revistas, mas o vento estava muito frio e os cabelos ficavam esvoaçando o tempo todo, não achei nada confortável, muito menos glamuroso. Mas valeu pela sensação de se estar no alto do navio, olhar para todos os lados e não ver nada além de mar e céu. Tinha uns telescópios nas laterais do deck, mas só o que consegui enxergar com eles foram outros ferries/navios muito parecidos com o meu e distantes demais pra distinguir qualquer coisa. Bem diferente de navegar pelas ilhas de Angra dos Reis ou na Baía de Guanabara.



Cheguei em Portsmouth em torno das 21h, peguei o ônibus/shuttle que passa na estação de Portsmouth Southsea (£1,50), meu trem era só às 22h, cheguei em Guildford e nem pensei em voltar pra casa à pé, encarei o táxi, já que a viagem tinha sido bem barata e tinha sobrado dinheiro. Cheguei em casa já era meia-noite, fui dormir pra acordar cedo e trabalhar no dia seguinte.

Normandie: Caen e Courseulles-sur-mer

A cidade de Caen é uma graça. Várias igrejas góticas maravilhosas; um castelo medieval, o Château Ducal, com dois museus, um de belas artes e outro de história da Normandie; ruas de paralelepípedo, carrosséis retrôs; casas charmosas; e é a cidade mais florida que eu já vi. Me apaixonei.

Château Ducal
Abbaie aux Dames




Église St. Pierre
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Hôtel de Ville e ao fundo, Abbaie aux Hommes


Estátua de Guillaume le Conquerant na pracinha
Guillaume le Conquerant, ou Guilherme o Conquistador, foi o Duque da Normandie que conquistou e reinou na Inglaterra de 1066 até 1087. Foi ele quem mandou construir a Abbaie aux Hommes, ou Abadia dos Homens, e sua esposa, Rainha Mathilde, a Abbaie aux Dames, a Abadia das Mulheres. As duas igrejas ficam mais ou menos de frente uma pra outra, em lados opostos do centro da cidade, com o castelo de Guillaume bem no meio, o Château Ducal.

As comidas típicas da Normandie são gallete, um crepe cuja massa é feita e trigo preto, e frutos do mar, especialmente mexilhões fritos com batatas fritas caseiras (fritas na manteiga e não no óleo). Eles também são famosos por biscoitinhos dos mais variados tipos e pelo queijo Camembert, que eu acabei comprando 3 numa promoção 3 por 5 numa feira de rua. E são deliciosos.

Infelizmente, a Normandie também é conhecida pelo tempo ruim. No dia em que resolvemos ir à uma praia, na vila de Courseulles-sur-mer, choveu o dia inteiro, isso porque a gente tinha checado a previsão do tempo e se assegurado que naquele dia não choveria. Mas o passeio foi bom mesmo assim. A Flora encontrou um amigo brasileiro em Caen, muito simpático, e ele nos deu uma carona de carro até a vila - além de nos dar uma caixa dos biscoitinhos normandos deliciosos.

Em algum momento da tarde o sol resolveu aparecer, e nós estávamos até de biquini, mas a praia de areia fina era tão extensa, e tinha tanta alga até chegar no mar (maré baixa), que nem deu pra molhar os pés. Mas tirei meu tênis (eu e minha mania recém-adquirida de ir à praia de tênis), enrolei a barra da calça jeans (porque estava frio pra usar short) e enterrei os pés na areia, que não saiu do pé quando espanada, de tão fina que era, só saiu no banho.

No fim do passeio, debaixo de chuva, passamos por um castelo bem atrás do ponto de ônibus que nos levaria pra Caen. Mais cedo, tínhamos perguntado no centro de informações turísticas se podíamos visitar o castelo, mas nos disseram que ele era privado. Gente que mora num castelo numa vila à beira-mar. Mas do lado de fora deu pra espiar e ver como era bonito.

Moinho atrás do castelo

Castelo do lado da rua movimentada
Nós achamos Caen uma cidade muito linda, histórica, charmosa, mas de pouca vida jovem, principalmente com os estudantes da universidade local em férias de verão. Que nada. Numa noite, andando por uma das ruas de paralelepípedo do centro, depois de termos comido crepe numa feirinha à beira de um canal, passamos por uma rua movimentada, cheia de bares, cada um mais lotado de jovens. Na noite seguinte, nossa última noite, voltamos à tal ruazinha depois de comermos um delicioso gallete, nos sentamos em um dos bares e conversamos bebendo vinho. Que noite agradável.

No dia seguinte, voltamos ao centro da cidade pra nos despedirmos, fomos no museu da história da Normandie e em seguida para a estação, onde Flora pegou sem trem para Paris. Depois da nossa despedida, me encaminhei para o terminal de ônibus, ao lado, onde peguei meu ônibus para o porto de Ouistreham para fazer o caminho de volta pra casa.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Cruzando o Canal da Mancha, parte I

Sei que andei sumida, mas aqui vai um resumo: minha rotina tem se resumido a estagiar e cozinhar. Nas últimas semanas fiz salmão com molho de alcaparras, frango assado com molho branco e batatas, arroz à piemontese com cogumelos 'selvagens' (nada de champingnon) e um bolo de chocolate avassalador. De resto, tenho saído pouco, mas lido muito. A vida está tranquila.

Na semana passada uma amiga do Brasil, com quem fiz uma aula de cinema na UFF e estava na minha turma de francês, me chamou para viajar. Ela estava fazendo intercâmbio de seis meses em Paris, viajamos na mesma época, e desde janeiro falávamos de viajarmos juntas. Em abril, durante as férias de primavera, tentei reviver esses planos, mas a agenda complicou e desistimos. Eis que ela me diz que está voltando para o Brasil na semana seguinte (hoje, na verdade!) e que queria viajar no fim da semana, perguntou se eu não queria lhe fazer companhia. Nem pensei duas vezes, estava mais do que na hora de nos reencontrarmos.

Escolhemos viajar pela França mesmo, algo que eu já estava pensando para o resto das férias de verão, mas não tinha visto possibilidades de acontecer; passagens de avião caras, passagens de trem caras. Escolhemos a região da Normandia, que Flora conhecia um pouco, mas só no inverno. Disse-lhe que não encontrava nenhuma passagem barata, e ela me sugeriu que olhasse o ferry-boat.

Taí, isso não tinha me ocorrido. Eu sabia que para ir da Inglaterra à Europa poderia-se atravessar o Canal da Mancha de ferry. Minha amiga Luísa tinha vindo assim na sua última visita, mas de ônibus. E eu lembro de ter visto, em Portsmouth, vários placas indicando diferentes portos, inclusive o de ferry-boats que levavam carros e pessoas. Resolvi pesquisar.

Encontrei a Brittany Ferries, que faz viagens da Inglaterra para a França e a Espanha. De Portsmouth, o porto mais próximo de mim e com maior frequência de trens, saía ferries para Caen e Le Havre na Normandia. Flora tinha citado Caen dentre as cidades que tinha vontade de conhecer, ficou decidido nosso destino. Comprei as passagens de ida e volta, e vi que precisava selecionar e pagar por lugares também. Além de cabines (de 2, 4, 6 pessoas) tinha a possibilidade de escolher cadeira reclinável, a opção mais barata - £5. Na viagem de volta, as cadeiras estavam esgotadas, fui obrigada a escolher a cabine de duas pessoas por £21, o que doeu um pouquinho no bolso, mas o total das passagens não ficou muito diferente das passagens de avião que estou acostumada a comprar: £90.

Na quinta-feira às 4 da manhã, saí de casa com minha malinha-tamanho-de-cabine-de-avião e uma mochila. Eu não tinha achado em nenhum lugar no site, nem nos termos de condições da viagem, se havia alguma restrição de bagagem, fora a restrição clássica de armas, objetos inflamáveis, etc. Achei melhor não arriscar com uma mala maior, até porque só passaria quatro dias viajando. Lá fui eu me aventurar pela madrugada, a pé, até a estação de trem - gastar com táxi nem pensar. Fora que, já me acostumei com tanto com esse caminho (quando fui para Berlim, a mesma coisa, fora as noites de voltar da balada de madrugada), que já não tenho receio. Esse sentimento de segurança não tem preço, e é uma das coisas que mais vou sentir falta quando voltar ao Brasil. Nos meus 40 minutos de caminhada na escuridão, encontrei três coelhinhos e dois caracóis nos arbustos que permeiam todo o caminho. Não vi nada nem ninguém que me deixasse apreensiva (com exceção de umas árvores que na escuridão pareciam as do filme da Branca de Neve), nada de mal me aconteceu.

Cheguei na estação de trem às 05h, para pegar o trem das 05h15 até Portsmouth. A viagem durou uma hora e meia e eu tinha que estar no porto 45 minutos antes do embarque, às 08h15. Eu tinha planejado bem o meu tempo. A viagem de trem seguiu tranquila, o mau tempo me impediu de apreciar o nascer do sol. Eu tinha até colocado um casaco que não usava desde o inverno, estava uma manhã bem fria.

Chegando em Portsmouth Harbour, uma das estações de trem da cidade, descobri que tinha que ter descido na estação anterior, Portsmouth and Southsea. O porto internacional ficava mais perto da outra, embora fizesse todo sentido que qualquer porto ficasse perto da estação chamada Harbour. Peguei um táxi, porque me disseram que a caminhada levaria uma meia hora, e era realmente um longo caminho. Chegando ao porto, fiz check-in, peguei meu bilhete e fui comprar uns euros na casa de câmbio. Tinha ainda uma lojinha de conveniências, onde comprei um café e fiquei fazendo hora no lounge de espera até chamarem para o embarque.

Na hora de embarcar, passamos por uma sala com esteira e detector de metais, como em um aeroporto, e depois entramos num ônibus que, depois de cheio, levou os passageiros para uma estrutura com rampas e escadas rolantes por onde subimos para acessar o ferry. Só então vi o tamanho da embarcação que eu iria viajar. Um navio, enorme. A maior embarcação que eu já tinha entrado na vida. Lá dentro, um mundo. Free shop, restaurantes, cinemas, sala de jogos, bar... nem acreditei. Me senti num cruzeiro, eu que nunca fui em um. Descobri onde era meu lounge de cadeiras, bem na proa, com um janelão para ver o mar. Minha cadeira era mais ao fundo, mas ainda dava pra ver bem o mar. E que cadeira confortável. Atrás das cadeiras havia uma estante para guardar as malas, e logo percebi que realmente não havia limite de bagagem. Cansei de ver gente com malas enormes, bolsas, sacolas, mochilas, à vontade. E tinha muitas crianças a bordo, tanto na ida quanto na volta. Aparentemente, ir à França de ferry é passeio de família. Como eu não tinha dormido nada naquela noite (ansiedade de viagem), me acomodei na poltrona e dormi.

Lá pelo meio dia, acordei e resolvi explorar o navio (vou chamar assim mesmo, não ligo se estiver errado). Havia dois restaurantes, um self-service, de preços moderados, e outro à la carte, de preços absurdos para meu bolso de estudante. Fui no self-service mesmo, que não era a quilo, como no Brasil: você passa a bandejinha, mas cada prato tem um preço, então fui bem cuidadosa nas escolhas. Resisti ao prato de camarões da parte de entradas e escolhi só um prato principal e uma sobremesa. Fish and chips e uma tarte au framboise - framboesa, minha recém descoberta fruta preferida.

Passadas as cinco horas de viagem, o navio aportou em Ouistreham, cidade (vila?) a trinta minutos de distância de Caen (se pronuncia 'cân') e fiquei feliz de ver como o clima do outro lado da Mancha estava completamente diferente do frio que tinha deixado para trás. O sol brilhava, as praias estavam cheias.

Desembarquei no porto e já fui desenferrujando meu francês, que estava adormecido; comprei um bilhete de ônibus para o centro de Caen e fui me aventurar pela cidade.

Eu só esqueci de pegar um mapa. E descobrir como chegava no albergue onde a Flora já estava me esperando. E nós estávamos conseguindo nos comunicar pelo celular. Mas eu resolvi descobrir meu caminho sozinha. Mas era feriado naquele dia e os transportes estavam reduzidos. O terminal de ônibus estava fechado, no de trem as pessoas só sabiam informar sobre trens. Fui para o ponto do tram, olhei um mapa, adivinhei meu caminho e entrei no próximo tram A que passou e desci no penúltimo ponto da linha.

Só que o albergue era na linha B, na mesma direção, mas na linha B. E eu só fui descobrir isso depois de andar léguas e léguas por uma cidade vazia, perguntar a várias pessoas, receber mil olhares de "sua louca, você ta muito longe pra ir a pé" até ter a lucidez de ligar para a minha amiga e perguntar como eu chegava lá. Achei um ponto de tram, entrei na linha A voltando pro centro, desci num ponto pra trocar pra linha B, troquei. Mas nisso, porque era feriado, os trams só passavam de meia em meia hora, e eu já tinha andado um bocado quando estava perdida. Um percurso que era pra durar meia hora eu fiz durar três horas. Mas cheguei a salvo no Auberge de Jeunesse, encontrei a minha amiga, e a jornada que parecia sem fim teve um final feliz.

Mais detalhes da viagem no próximo capítulo.

terça-feira, 30 de julho de 2013

#176: Seis meses de Reino Unido

Hoje, 30/07/2013, completam-se 6 meses desde que eu cheguei neste país. Seis meses desde aquela viagem de dez horas de duração mais as cinco horas de atraso. Há seis meses eu deixei a minha cidade, meu país, minha cultura, minha família e meus amigos para aprender a  viver neste país estrangeiro, onde se dirige do lado errado da rua e a monarquia ainda impera - pelo menos nas manchetes de jornais.

Nestes últimos seis meses, aprendi tanta coisa. A cozinhar mais do que ovo e macarrão, usar a máquina de lavar e a de secar, procurar ofertas no mercado, fazer faxina (embora muito raramente), comer iogurte e granola, fazer reservas em albergues e comprar passagens de avião, enviar postais e cartas pelo correio, comer espinafre, manusear uma câmera de vídeo profissional, usar a biblioteca, usar maquiagem (direito), minimizar a saudade, remover manchas de vinho de roupas, assistir seriados online, ajustar o aquecedor, fazer lasanha, usar cebola e alho, pintar o cabelo (sozinha), escolher corte de cabelo (sozinha), a sair das zonas 1 e 2 de Londres, dentre tantas coisas mais...

Foram seis meses de muitas dificuldades, desbravamentos, perdas, ganhos. Mas enquanto eu estiver aprendendo, só vou enxergar ganhos.

Que venham mais seis meses de lições de vida.

sábado, 27 de julho de 2013

#173: Noite de Verão

E não é que o verãozão continuou?

O Reino Unido viveu uma onda de calor das mais fortes nos últimos sei lá quantos anos, durando 3 semanas de sol intenso, com termômetros chegando a 30 graus (!!), a inglezada fugindo pras praias nos fins de semana e os trabalhadores sofrendo com a falta de refrigeração nos transportes públicos. 

No dia 15/07 teve uma pane mecânica em algum trecho dos trilhos fora da estação de Waterloo, a mais movimentada de Londres, causando interdição de 4 das 20 plataformas de trem da estação, e gerando um caos: vários trens cancelados, e a grande maioria atrasados. E justo nesse dia estava um calor dos infernos, eu estava suando na minha calça jeans e tinha resolvido sair do estágio mais cedo pra chegar em casa cedo também. Doce ilusão! Cheguei na estação às 17h30 e só consegui pegar trem uma hora depois - e os trens pra Guildford são quase de 5 em 5 minutos. Pra completar, o trem estava insuportavelmente lotado, mais ou menos como os trens da Supervia do Rio de Janeiro, e o vagão que eu peguei não tinha ar condicionado e mal tinha janelas - só basculantes que abriam o suficiente para fornecer oxigênio mas não ventilação. E eu ainda estava gripada, com o nariz escorrendo, dor de cabeça, um horror. A única vez em que praguejei contra o calor desde que vim pra cá.

Da quinta-feira seguinte até a terça-feira dessa semana eu aproveitei minhas folgas do estágio para conhecer Berlim, pela primeira vez, sozinha. Por dois dias tive a companhia de uma amiga da minha mãe e amigos dela, o que foi ótimo, mas também adorei ter a liberdade de ir aonde eu queria, quando eu queria, sem ter que fazer concessões com outros companheiros de viagem. Fui a vários museus, inclusive o Museu dos Judeus, que eu recomendo bastante: um banho de aula de história, reflexão e sensibilidade. Mas sofri com o calor, porque também era verão em Berlim. Tomava sorvete praticamente todo dia, eu que nunca fui muito de sorvete, mas é impossível resistir a um bom sorbet de framboesa (raspberry) ou um de chocolate belga. Ou os dois!

Voltar ao trabalho depois de 5 dias de férias foi um pequeno choque de realidade, mas foi bom. Na quinta-feira (25/07) fui a um evento que a empresa foi filmar, era um desafio de quebra de recordes do Guinness para funcionários de várias empresas. Eu e minha chefe participamos dos desafios e nos divertimos muito e um recorde foi quebrado na noite: o de torre de copos de papel mais alta construída em apenas 1 minuto. Toda esse envolvimento serviu para me ajudar a escrever o press release sobre o evento no dia seguinte.

Hoje é sábado e eu aproveitei para descansar. Acordei, tomei um bom café da manhã, aproveitei o solzinho e dei uma esticada na grama lendo um livro. À tarde fiz uma lasanha, minha primeira, e desfiz a mala de Berlim que ainda estava no canto do quarto. O plano era sair mas uma chuvinha inclemente cai lá fora e está difícil arranjar companhia ou mesmo ânimo.

Em dias como esse, nada melhor do que tomar um sorvete e assistir sua série preferida.


domingo, 7 de julho de 2013

#151, #152: Mais verão

Na sexta-feira (05/07) à tarde dei uma volta pela cidade e revisitei o castelo, cujas flores estão cada vez mais lindas. Voltando para o Manor Park, encontrei o G e nos esticamos na grama perto laguinho para tomar sol - não é todo dia que faz 27 graus. Até tirei um cochilo. Só foi difícil manter as abelhas longe, já que a grama é cheia de florzinhas.

À noite encontrei novamente o G, a M e outros amigos nossos para uma sessão de cinema numa das salas de conferência da recepção. Assistimos Les Misérables (pela segunda vez, no meu caso) e nos fartamos dos maravilhosos lanches que a M nos ofereceu: mil tipos de Pringles, suco e coca-cola, twix e até mesmo morangos com chantilly.

No sábado o calor de 27 graus continuou. Alguns dos brasileiros foram curtir uma praia em Brighton, outros fizeram uma excursão à Liverpool e aproveitaram para comer churrasco brasileiro, enquanto eu encontrei um pequeno grupo disposto a se aventurar para um banho de rio nos limites da cidade. Foi uma longa caminhada descendo o rio, mas valeu a pena pelo cenário e pelas águas refrescantes - digo, geladas. Passamos o resto da tarde esticados ao sol.

Wey River
 
No domingo dormi até às 14h, de cansaço da aventura do sábado. Só fiquei em casa lendo. Segunda-feira começa mais uma semana de trabalho.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

#150: Verão Inglês

Então é verão. Temperaturas estáveis de 20 a 22 graus todos os dias, caindo para 17 graus todas as noites. Consigo sair por aí (de dia) de vestido, sem meia calça, e às vezes sem nem um casaquinho. À noite, um casaco leve basta. É claro que os dias são quase sempre nublados e os insetos que ficaram escondidos durante todo o inverno são do tamanho de animais domésticos, mas o que os ingleses chamam de verão tem sido bem agradável.

Meu estágio começou e estou bem animada. É numa produtora de vídeos (comerciais, vídeos corporativos/promocionais, mini documentários...) bem pequena, com gente bacana, no norte de Londres. Tenho que pegar dois ônibus, um trem e andar umas dez estações de metrô pra chegar lá e ainda levar meu laptop, mas tudo bem. Estou curtindo o trabalho, que no momento está mais relacionado ao meu curso do Brasil (Jornalismo) do que o daqui (Cinema), mas estou adorando. E acho que consigo achar um jeito de pegar menos conduções - ou pelo menos diminuir o tempo de viagem - para chegar lá. O bom é que quando chego em casa por volta das 20h, ainda está claro e nem sinto que perdi um dia inteiro dentro de um escritório com poucas janelas.

Hoje fiz o primeiro estrogonofe da minha vida. Ficou bom, mas não tinha o mesmo gosto que estrogonofes devem ter. Segundo soube depois da minha mãe, o molho deve levar creme de leite, molho de tomate, ketchup, uma colher de sobremesa de mostarda e molho inglês. Eu só tinha ketchup, mostarda Dijon e creme de leite (e o creme de leite daqui é estranho... líquido demais). Mas ficou bom e eu acertei no frango.


Aliás, faz muito tempo que não relato meus progressos culinários. Eu finalmente passei dos nuggets e das carnes pré-temperadas-e-prontas-para-colocar-no-forno para o peito de frango congelado. Sim, eu estou trabalhando com carnes completamente cruas agora e temperando-as sozinha. Já fiz frango na frigideira com molho shoyu, frango na frigideira com molho shoyu e alecrim, frango no forno com manteiga, alho e alecrim e finalmente o estrogonofe de frango. Eu até pego no frango com as minhas MÃOS e corto ele em pedacinhos com uma faca. Watch out, world. Tem uma grande chef surgindo no pedaço.

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*E para aqueles preocupados com a falta de verduras no meu cardápio, eu continuo comendo meus legumes no vapor ocasionalmente e até já fiz uma sopa deles - bem gostosa, apesar de vagem não ser o melhor ingrediente para sopas. Fica a dica. E agora também como granola! Com iogurte! É muito progresso, gente.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Viajando pelo UK: Portsmouth

Depois de Cardiff, passei meus dias todos enfiada dentro de casa, descansando das mini-férias. Saí umas duas noites seguidas com alguns amigos, passei mais dias desfrutando da companhia do pó do meu carpete, personagens fictícios de seriados e outros entretenimentos de internet (o que mais há para fazer em dias nublados?), resolvi espanar a poeira e abandonar o estilo de vida vampírico, acordar cedo e sair em busca do (tão raro) sol na companhia de G e M. Destino: Portsmouth, a apenas 1h20 de distância de trem.

Primeira vista da cidade: o porto



A cidade portuária e histórica é bem bonitinha, tem alguns navios antigos para visitar e vários barcos que oferecem passeios pela costa e até a Ilha de Wight. Também tem um shopping/outlet enorme com várias marcas, ótimo lugar para fazer compras quando estiver voltando para o Brasil...

Começamos o passeio em busca do centro de informações turísticas, onde pegaríamos um mapa para descobrir o que há pra se fazer na cidade. Mas o centro tinha mudado de lugar e estava quase do outro lado da cidade. Não tínhamos opção a não ser seguir pela costa e eventualmente encontrar Tourist Information Centre. Felizmente, encontramos um outro centro de informações (de compras, não de turismo) dentro do Gunwharf Quays - o super shopping center e outlet onde M e G piraram (só um pouquinho) nas promoções - e lá conseguimos um mapa. Como já era meio-dia e estávamos famintos, resolvemos comer por ali mesmo, já que a oferta de restaurantes era grande. Demos uma de rycos almoçando do lado de fora do restaurante, de frente para a marina onde nosso iate nos buscaria para um passeio mais tarde - o mundo da fantasia é uma coisa linda.

Depois de um almoço agradável, continuamos andando ao longo da costa até chegarmos a uma praia. Descemos para as pedras e ficamos um bom tempo sentadinhos conversando, olhando o mar e pegando sol (lembrei de passar protetor solar dessa vez para não ter meu nariz descascando como quase aconteceu depois de Brighton!). Depois de alguns minutos relaxantes voltamos a caminhar e encontramos um píer com um pequeno parque de diversões, mini-golfe e até um cassino. Continuamos em frente, passamos por um parque bonitinho, passamos pelo castelo de Southsea (uma fortificação qualquer, nada comparado aos castelos de Cardiff, a menos que do mar a vista fosse diferente...), andamos pelo alto da 'muralha' e resolvemos parar para descansar mais um pouco em alguns bancos - afinal, andamos por quase toda a costa da cidade, considerando ainda todos os desvios e caminhos errados que tomamos no início. Até tirei um cochilo. A propósito, do lado do castelo, nossa última parada, estava o tal centro de informações turísticas. Imagine andar aquilo tudo sem um mapa! Ainda bem que conseguimos um no início do passeio.



Por volta das cinco da tarde o vento ficou mais frio e o sol mais fraco e nossas pernas definitivamente começaram a falhar. Andamos um pouco mais e entramos num ônibus que nos levou de volta exatamente para onde nossa viagem tinha começado: na estação de trem de Portsmouth Harbour. Pegamos o trem de 17h45 e às 19h15 já estávamos dentro de casa.

Acabamos não explorando muito os pontos turísticos da cidade; não entramos em nenhum museu ou monumento. Mas valeu a pena pelas fotos que tiramos e por toda a diversão que tivemos juntos. E eu amei passar o dia inteiro fora de casa na companhia de bons amigos. Eu sozinha não estava mais dando conta de mim mesma.

(Só faltou a foto dos três juntos que, mesmo com um tripé em mãos, acabamos esquecendo de tirar ...)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Viajando pelo UK: Cardiff

Às sete horas da manhã de domingo, eu e J nos encontramos para nossa longa caminhada de 40 minutos até a estação de trem - os ônibus no domingo só começam a passar 09h30 -, onde pegamos um trem para a estação Victoria em Londres e de lá, pegamos nosso ônibus para Cardiff pontualmente às 09h30. Eu estava animada para ver as paisagens do lado de fora da janela durante as três horas e meia de viagem, mas tão cansada das noites anteriores que dormi o caminho inteiro - acordando de vez em quando só. Mas antes de dormir, ainda em Londres, tive a surpresa de passar em frente à casa onde morou Alfred Hitchcok, na Cromwell Road, no Royal Borough of Kensington and Chelsea.

Peguei a foto nesse blog: http://blog.excess-baggage.com/2012/04/10/alfred-hitchcock/
Uma boa cochilada depois, chegamos em Cardiff, debaixo de chuva fina e fria. Tivemos que andar só um pouco (um pouco menos, se eu tivesse acertado a direção no mapa de primeira) para encontrar nosso albergue numa das principais ruas da cidade, St. Mary. O Bunkhouse, onde ficamos, é super bem localizado, perto de um Tesco, um Sainsbury's, vários restaurantes e lojas e pertinho do Castell Cardiff, nossa primeira parada depois de deixar as malas no albergue.

St. Mary Street decorada com bandeiras do País de Gales
Na verdade, a primeira coisa que fizemos mesmo foi comer, porque tendo acordado às seis da manhã (na verdade eu mal consegui dormir, de tanta ansiedade com a viagem) e já sendo uma da tarde, estávamos famintas. Nosso primeiro impulso foi seguir para a churrascaria brasileira (sim!!!!) que tínhamos visto logo que chegamos, também na rua do albergue, a Viva Brazil. Mas porque era domingo e dia dos pais aqui, a churrascaria estava lotada e só tinha mesas a partir das 17h. Tremendo balde de água fria, ainda mais depois de termos sentido o cheiro da carne do outro lado da rua. Mas não desisti, fiz reserva para o dia seguinte e fomos procurar outro lugar pra comer, no caso, o Wok to Walk, rede de comida chinesa que eu já tinha experimentado em Amsterdam. Forramos o estômago e fomos ver o castelo.

Do lado de fora não dá pra entender como é o castelo, pois você só vê um muro de pedra extenso e alto. Quando você entra é que dá pra ver que aquele muro é a fortificação (que faz um quadrado do tamanho de um quarteirão grande) e lá dentro tem várias coisas: um gramado enorme, um monte com um castelinho medieval no alto e um segundo castelo, maior, do lado esquerdo, em estilo gótico.
Muro do Castell Cardiff do lado de fora. Um castelo no meio da cidade!
 O preço para entrar no castelo é salgado: £9,50, apresentando a carteirinha de estudante. Mas o ingresso inclui também um áudio-guia, que é bem legal. Começamos o passeio por cima dos muros que vemos do lado de fora, onde os guardas ficavam de sentinela. depois de andar por cima de dois lados do quadrado, tínhamos a opção de explorar os túneis que passam por dentro destes muros, que foram usados como abrigos estratégicos durante a segunda guerra mundial; mas quando demos o primeiro passo para dentro da câmara, o ar era tão pesado de umidade e mofo e sei lá mais o quê que mal dava pra respirar. Ter a experiência de como era se esconder de bombas durante a guerra ou então de ficar preso na masmorra de um castelo medieval? Não, obrigada. Voltamos para o ar respirável e à luz do (ainda que enevoado) dia e andamos em direção ao castelo menor que ficava no alto de um monte.

Vista do interior do castelo de cima do muro. À esquerda: castelo gótico construído no século XIX; à direita, sobre o momento, The Keep
The Keep, como é chamado, era um castelo usado mais com propósito de guerra, mas também chegou a servir de moradia de alguns lordes (os quartos ficavam nas laterais do castelo, 'dentro' dos muros). Na verdade ele foi construído por invasores nórdicos no século XI por cima de ruínas romanas. Os muros originais também eram romanos. Tanto esse castelo quanto os muros foram reconstruídos no período Vitoriano (século XIX), em que o estilo gótico foi 'ressuscitado' - e o castelo gótico não existia daquele jeito, até esses mesmos Vitorianos remodelarem-no por completo. O grande nome responsável pelas reformas sofridas por este castelo é o Marquês de Bute, que ficou muito rico com a indústria de carvão da região de Glamorgan.

The Keep mais de perto

Interior do Keep
Enfim, é muita história pra um castelo só, eu não consegui apreender nem um terço, mas o importante é saber que o castelo, assim como a cidade de Cardiff, teve muita influência de romanos, nórdicos e bretões! E que o nome Bute é muito importante na região - é nome de rua, de parque, de tudo.

Depois de rodar o castelo, voltamos para a rua principal e passamo no mercado Sainsbury's para comprarmos o lanche da noite - sanduíche, suco e chocolate do meal deal. Como era domingo, depois das 18h não tinha mais nada aberto. Voltamos para o albergue e aí é que nos instalamos direito no dormitório feminino com capacidade para 18 meninas. Fiquei com medo de que fosse ser tudo muito bagunçado, mas quando chegamos éramos as únicas e ate o fim de nossa estadia somávamos 9 ao todo. Os beliches pareciam novos e o colchão era confortável. A roupa de cama era toda de florzinha e uma parede do quarto era rosa choque com um espelho dourado. O banheiro era bem limpo, tinha dois chuveiros (com torneira automática do tipo que desliga depois de alguns segundos, os banhos tem que ser bem econômicos, haja paciência pra ficar apertando o botão toda hora - mas pelo menos a água é perfeitamente quente), um com a porta quebrada, mas que foi consertada no dia seguinte; duas pias, duas cabines de sanitário.

Na segunda-feira, eu e J acordamos cedíssimo para tomar o café da manhã que era servido só entre 7h e 9h. Comemos torradas e chá, assistindo ao noticiário da BBC sentadas numa das camas antigas que fazem parte dos assentos da área do café da manhã: nada de sofás, apenas camas de grandes cabeceiras forradas com colchas de patchwork, banquinhos azuis turquesa com almofadas de tecido floral, mesas de piquenique (aquela do Zé Colmeia) com guarda-sóis de tecido franjado e iluminação indireta. Um charme meio vintage, meio kitshc, mas muito fofo e aconchegante.

Do blog: http://cosmeticsclothesandcutethings.blogspot.co.uk/2013/03/bunkhouse-cardiff.html
Tive dificuldades pra dormir na primeira noite porque o barulho da rua era absurdo. Como nosso quarto era no segundo andar e ficava bem de frente pra rua, dava pra ouvir tudo: as pessoas conversando (alto) no bar ao lado, as máquinas varradeiras passando, caminhões de lixo, a música alta da boate ao lado reverberando na parede ao lado da minha cama, as gaivotas notívagas guinchando. Foi uma noite difícil, mas as seguintes foram melhores, talvez porque eu estivesse cansada demais, mas acredito que foi graças ao remédio para sinusite e congestão nasal que comprei - com cápsulas noturnas para dormir melhor à noite.

Depois do café da manhã, passamos por algumas lojas e seguimos a St. Mary em uma linha mais ou menos reta em direção à Baía de Cardiff. O dia ainda não estava bonito, mas a chuva diminuía e era menos frequente - uns chuviscos de vez em quando. Acompanhei J até a atração que ela planejava ir a meses, Doctor Who Experience, uma espécie de museu sobre o seriado britânico Doctor Who que eu nunca tinha ouvido falar até o meio do ano passado, e parece que é febre mundial, porque todo mundo que encontro agora é um fã. Mas a série deve ser mesmo boa, afinal, começou em 1963 e continua até hoje. E é uma tradição britânica ser fã da série, também descobri.

Durante as duas horas que J passou no museu, dei uma volta pela baía, fui numa igrejinha norueguesa construída no século XIX, durante um outro período em que a presença nórdica era massiva na cidade, por causa do comércio marítimo; entrei no Pierhead, um prédio bonito, todo feito de terracota, que contava um pouco da história da cidade e da baía. Também entrei no prédio ao lado, um edifício moderno onde fica a National Assembly for Wales, espécie de Senado ou Parlamento onde são votadas leis específicas para o país. Essa autonomia foi conquistada em 1998. Escócia e Irlanda do Norte também funcionam de forma parecida, com legislações próprias mas subordinados ao Reino Unido em todo o resto.
Pierhead
Às 14h, finalmente, eu e J tivemos nosso tão aguardado almoço brasileiro. Fazia tempo que eu não comia carne direito, porque além de ser cara, a carne daqui não é tão boa quanto a que gente come no Brasil - e eu também não me arrisquei ainda a fritar bifes. Quando como carne é só em restaurante, principalmente em forma de hambúrguer ou iscas no yakisoba. Por isso o tamanho da animação! Comi quase tudo que me foi oferecido, só dispensei o chilli chicken (invenção daqui, quem é que come frango apimentado no Brasil?), o cupim (eca!) e os pernis (de porco e cordeiro). Me fartei de alcatra, picanha, coraçãozinho e medalhão de frango com bacon (e nem gosto de bacon!), só me decepcionei com a linguiça, que não era aquela rosada de churrasco, era a linguiça inglesa branca e sem graça. A farofa também deixou a desejar, muita pimenta e passas. Mas a polenta frita estava nota 10!! Pena que não tive forças para ir até a mesa do buffet buscar mais.
Ah, a saudade de Brasil era tanta que até bebi guaraná Antarctica, e eu não gosto de refrigerantes.

À tarde J e eu passeamos mais pelas lojas, voltamos à baía e de novo à rua principal (mas na volta pegamos um ônibus, o caminho é bem longo e já tínhamos andado bastante!)

Na terça-feira o tempo começou a melhorar, o sol até saiu. Como já tínhamos feito tudo e visto tudo o que tinha de importante na cidade, resolvi ir até o centro de informações turísticas procurar inspiração. O que não faltava era lugar pra explorar nos arredores da cidade! Escolhemos mais um castelo, no pequeno vilarejo de Tongwinlais (1950 habitantes), há 30 minutos dali, de ônibus. Foi um passeio barato, considerando o preço da passagem de ida e volta (3,80) e o ingresso do castelo (3,80 para estudantes). O castelo era lindo, mais um castelo medieval reformado por Vitorianos em estilo gótico - e mais um Bute no meio da história. Me apaixonei, parecia um castelo de conto de fadas.
Castell Coch no vilarejo de Tongwynlais


Estávamos de volta em Cardiff à hora do almoço e resolvemos experimentar o restaurante português-com-comida-moçambicana-e-música-brasileira onde nunca conseguimos comer em Guildford porque está sempre cheio, o Nando's. A especialidade da casa é o frango com molho peri-peri, de origem moçambicana. O frango era bem gostoso e você podia escolher o nível de apimentado que queria (por que, por que essa mania de comida apimentada em tudo que é canto??) Escolhi o quase menos apimentado de todos, só com toques de limão e ervas. Agora, o que mais valeu a pena foi a sobremesa: uma fatia de bolo de chocolate cremoso e gelado enorme e delicioso. A princípio íamos dividir, mas quando provamos a primeira colherada, soubemos que íamos querer mais. A gula falou mais alto e eu nem liguei. Ô bolo bom. Parecia um bolo feito do sorvete de Chocolate Fudge Brownie do Ben and Jerry's. Pura perfeição. Possivelmente o melhor bolo de chocolate do mundo.

Depois desse êxtase culinário, rodamos várias lojas e shoppings e compramos marmitinhas de sushi do mercado Waitrose, pequena extravagância para nossa última noite. Estava bem delicioso.

Na quarta-feira de manhã deixamos nossas malas prontas na recepção e fizemos o checkout. Rodamos pela cidade até às 10h30, quando pegamos um barco dentro do Parque Bute que descia o rio até chegar na baía. Achei que o passeio seria mais emocionante, muitas coisas para ver nas margens do rio, o vento nos cabelos... mas o barco era pequeno e baixo, todo fechado com janelas (bem seguro, para deleite de minha amiga que morre de medo de barcos) e não tinha nada de interessante nas margens, só prédios. Chegando na baía, passamos por baixo de uma ponte e vimos vários cisnes flutuando nas águas. Nosso último dia estava bem bonito, mais ensolarado, 20 graus, deu até pra suar.

Fizemos o caminho de volta ao albergue a pé, fazendo uma pausa para comer sanduíches de almoço e então finalmente pegando nossas malas e rumando para o terminal de ônibus. Mais três horas e meia de viagem, uma hora até Guildford (tempo total, contando deslocamento do terminal até a estação de trem e trocas de trem em Clapham Junction) e pronto, estávamos de volta em casa. Só tivemos a surpresa de descobrir que o itinerário dos ônibus sofreu mudanças de novo, mas dessa vez por causa de obras no Manor Park. Nenhum ônibus está podendo entrar aqui e tem um trator enorme na rua principal do campus. Tivemos que descer no ponto entre o hospital e a recepção, e parece que essa obra fica ainda por algumas semanas. Pelo menos eles são sensatos e só fazem essas coisas nas férias mesmo.

Férias, férias. Bem, em breve elas vão acabar, pois devo começar meu estágio obrigatório do Ciência sem Fronteiras, se não na semana que vem, na primeira semana de julho. Ainda não sei muito sobre ele, só sei que é numa empresa em Londres que faz vídeos promocionais e comerciais, Boko Creative. Vamos aguardar...

quarta-feira, 19 de junho de 2013

#135: Festa no lago

Na sexta-feira, dia 14/06/13, foi o último dia letivo desse semestre em Surrey. Para comemorar, muitos estudantes vão às festas oficiais da boate da universidade - que começam na quarta-feira, mas chegam a ser bem caras (cerca de 20 libras só pra entrar) -, recorrem à boates da cidade ou a festas em casas de amigos em alojamentos do campus. O fato é que no final da noite, lá pelas três, quatro da manhã (quando o sol aqui já está nascendo), toda essa galera se reúne às margens do lago da universidade para continuar festejando o fim das aulas em comunhão com a natureza e com os amigos que vão para longe no verão.

A minha sexta-feira foi toda de despedidas. Primeiro no almoço, em que J e eu nos despedimos de nossa amiga de Film Studies, Melanie, de Cingapura. Aprendemos muito sobre a cultura do país neste convívio de quatro meses e fizemos uma amizade valorosa. Cingapura certamente será um destino de viagens no futuro.

À noite, eu, J e outras amigas fomos para o Stag Hill encontrar A e começar nossas comemorações à beira do lago - e também nos despedirmos de A, que já estava voltando para o Brasil. Não sendo CsF, ela tinha vindo só para ficar seis meses e seu tempo chegara ao fim. Mas antes dos abraços finais, conseguimos nos divertir bastante.

Primeiro porque descobrimos que ninguém vai pro lago antes da madrugada. Segundo porque nossa amiga T descolou uma festa na casa de amigos dela, ali no campus mesmo, e por lá ficamos batendo papo e ouvindo música até uma da manhã mais ou menos. Resolvemos voltar para o lago, mas eis que começa a chover. Fomos todas nos abrigar da chuva debaixo de um trailer de fast-food - e, já que estávamos ali, comer uns sanduíches também. Nisso, Laurianne, minha companhia para peças de teatro, nos encontrou e uma pequena aglomeração se formou embaixo da barraquinha de hambúrgueres e cachorros-quentes, e Laurianne e eu fizemos amizade com alguns ingleses. British bad weather: bringing people together since... ever.

Ao longo da madrugada, a chuva passou e nosso grupo grande foi se dispersando, mas consegui me despedir de A, de quem vou sentir muita saudade (mas pelo menos ela ainda mora no Brasil, é mais possível de encontrar). Assisti ao nascer do sol e explorei todos os cantos do lago que eu sempre tive curiosidade e às sete da manhã eu chegava de volta ao Manor Park, e dessa vez era hora de despedir-me de Laurianne. Lyon é mais uma cidade francesa que terei vontade de visitar agora e é bom saber que terei uma amiga por lá.

Desnecessário dizer que, tendo virado a noite em claro, dormi o sábado todo - ok, só até às 15h. Mas o resto do dia não foi tão produtivo. Só o que fiz foi arrumar minha mala para a viagem da manhã seguinte: Cardiff, no País de Gales.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

#134: Teatro ao ar livre

Depois daquele lindo sábado ensolarado, a semana foi toda cinzenta e chuvosa. Mas mesmo assim não deixei de sair todos os dias para comemorar a última semana de aulas do semestre, e despedir dos amigos que estão partindo agora. 

Na segunda fomos no maior pub crawl do semestre, organizado pela sociedade de engenharia e outros cursos da área de ciência; na terça, fizemos uma pequena reunião na casa de uma das brasileiras, comendo pizza e bebendo cidra altas horas da noite na cozinha, só conversando e passando o tempo junto; na quarta, nosso clube da luluzinha se reuniu no pub mais antigo de Guildford, o Three Pigeons, e passamos a noite comendo, falando sobre Harry Potter, novelas, filmes românticos... e nos derretendo com o lindo sotaque do nosso garçom, que pronunciava a palavra 'pear' da forma mais linda do mundo. Também fizemos uma orgia de chocolate com o 2-for-1 Dessert Deal da casa, e como éramos 5, logicamente pedimos 6 sobremesas pelo preço de 3, e foi difícil decidir qual era a mais gostosa: o Luxurious Belgium Chocolate Brownie ou o Five-Layered Chocolate Cake, ambos servidos quentes com sorvete de baunilha. A quantidade absurda de chocolate compensou sair de casa naquele dia que só fez chover.

Hoje, quinta-feira (13/06), o tempo melhorou milagrosamente, quase que exclusivamente para que eu pudesse assistir minha peça de teatro ao ar livre sem empecilhos - mas já consegui perceber um padrão no clima daqui: um dia lindo, cinco dias feios; uma semana linda, duas feias; e assim vai. O sol surgiu, o solo secou, mas o vento continuou gelado e impiedoso. E eu acreditei no sol e fui de meia-calça, vestido de alcinha e uma blusa de lã simples.

Fui com minha amiga francesa Laurianne nos jardins do Guildford Castle assistir à uma das peças mais famosas de Oscar Wilde, The Importance of Being Earnest, produzida pela Guildford Shakespeare Company. Os jardins ainda não estavam totalmente floridos, mas desde a última vez, o caminho principal já está todo coberto de petúnias e outras florzinhas em tons de roxo e lilás. No alto da colina onde fica o gazebo, foi montado o pequeno palco e algumas fileiras de cadeiras colocadas à frente. Tinha uma tenda onde ficava a 'bilheteria' e o 'bar'. Chegamos uma hora e meia antes da peça começar, trocamos nossas reservas das internet por ingressos de verdade, alugamos cobertores e guardamos nossos lugares na terceira fileira com eles. 

Para esperar até a hora da peça, fomos no pub ao lado, o King's Head. Bebemos um pint de cerveja cada uma e comemos um delicioso sanduíche de salsicha com mostarda em grãos (à l'ancienne, como diriam os franceses). Foi o tempo certinho de espera até o início da peça.

Situada no século XIX, a peça é uma típica comédia de erros e uma crítica à sociedade britânica. Jack Worthing é um jovem que tem duas identidades: em sua casa de campo, é Jack, o honrado e responsável guardião da linda jovem Cecily; na cidade, ele se passa por Ernest, que também é o nome que inventou para seu irmão baderneiro fictício, pressuposto para que ele vá a Londres com frequência. Em Londres, 'Ernest' pede Gwendolen, a prima de seu melhor amigo, Algy, em casamento; mas a união não é aprovada pela mãe da jovem, por 'Ernest' não ter berço. Ao mesmo tempo, Algy descobre a vida dupla do amigo e se aproveita da ausência de Jack para visitar Cecily no campo, apresentando-se como o irmão de Jack, 'Ernest'. E quando Gwendolen e Cecily se encontram, e descobrem que estão ambas apaixonadas por 'Ernest', está formada a confusão. 

Detalhe: o nome do personagem faz um trocadilho com o nome da peça: earnest significa honesto, sério, devotado.

Cenário da peça nos jardins do Guildford Castle
Amei a peça e amei ter novamente a experiência do teatro. Vou ficar de olho na Guildford Shakespeare Company para ver mais peças clássicas durante meu tempo aqui. A ambientação é muito agradável e os atores são incríveis.


terça-feira, 11 de junho de 2013

Viajando pelo UK: Brighton

No sábado (08/06) aproveitei o raro dia ensolarado para fazer um passeio que eu tinha vontade desde antes de vir para cá, quando ainda estava escolhendo as universidades. É que eu tinha visto que tinha um curso de Creative Writing na University of Brighton, que estava vinculada ao CsF no edital anterior ao meu. Já tinha ficado toda animada, feliz que ia morar à beira-mar (como moro em Niterói) e na 'cidade mais ensolarada do Reino Unido'. Só que quando chegou o momento de eu escolher as universidades, Brighton e Creative Writing tinham sumido completamente da lista. Fiquei arrasada; e aí resolvi escolher Film Studies, o que não foi uma escolha ruim!

Enfim, no sábado, eu e J saímos de casa de manhã e entramos num trem para Clapham Junction (estação em  Londres que se conecta a mais cidades fora de Surrey) e de lá pegamos outro para Brighton, uma viagem de aproximadamente 1h30, dependendo dos trens que você pega. A gente perdeu o trem rápido pra Clapham Junction por 1 minuto e tivemos que pegar o lento, daí o tempo total de viagem foi mais longo, mas nem ligamos.

Chegando em Brighton, sem mapas (a não ser pelo Google Maps no celular, que não consultamos), eu e J seguimos nossos instintos e anos de vida morando em cidade litorânea (eu, Niterói/Rio, ela, Natal) e saímos da estação traçando uma linha reta à nossa frente. Foi uma caminhada razoavelmente longa, com muita gente no caminho (se tínhamos dúvidas de que o mar estava lá na frente, as pessoas com bermudas e chinelos indo pra mesma direção que a gente nos teriam dado certeza), descidas íngremes (Brighton tem um monte de ladeiras, e o mar, obviamente, fica na parte mais baixa da cidade), mas finalmente encontramos o lindo mar azul.

Primeira vista do mar, aquele pedacinho azul lá embaixo
A praia estava lotada e nossa primeira surpresa (a gente suspeitava, mas ver é completamente diferente do que saber) foi constatar que a praia não tinha areia, mas pedras - pedras lisas e redondas, bem bonitas, ao longo de toda a extensão da praia. Concordamos que deve ser muito desconfortável passar o dia deitado nessas pedras, mas a conveniência de não voltar pra casa com areia em todas as partes do corpo compensa.
Praia cheia, píer ao fundo














Descemos do calçadão e nos sentamos nas pedras um pouco, apreciando o sol e o vento gostoso, que não tinha cheiro de maresia, o que tirava um pouco da experiência de estar na praia. Talvez a areia contribua para esse cheiro tão característico... hum...

Andamos pela parte baixa do calçadão, passando por várias lojinhas de souvenires (conchas enormes e estrelas do mar ressecadas), restaurantes de peixe e barraquinhas que vendiam moluscos e caranguejos 'frescos' (gelados e crus, eca). Tinha um carrossel vintage lindo na praia e mais à frente o famoso píer de Brighton, com um parque de diversões completo.



A fome bateu e fizemos o caminho de volta, analisando nossas opções de almoço. Fiquei muito tentada a comer na churrascaria brasileira que vi no caminho para a praia, mas minha amiga não come carne vermelha e estávamos na praia, tínhamos que comer frutos do mar sentadas em mesas de frente para o mar. Comemos um prato de camarões gigantes num restaurante de garçonetes desorganizadas, chamado Bar de la Mer (uma das garçonetes era brasileira).

Depois do almoço, voltamos para a parte alta do calçadão, ao nível da rua, e tomamos sorvete Ben & Jerry's. Continuamos nossa caminhada até o píer, vimos o parque de perto e como já era seis da tarde (apesar do sol estar brilhando forte no céu), achamos prudente voltar para casa. E foi, porque só chegamos em Guildford lá pelas 22h, devido aos desencontros de horários dos dois trens que tínhamos que pegar. Chegando em casa, me olhei no espelho e constatei que o sol forte da praia, mesmo uma praia da Inglaterra, mesmo com uma temperatura de 20ºC, queima. Meu nariz e bochechas estavam vermelhinhos. É claro que eu não tinha passado protetor.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

#127: Verão chegando...

Consegui terminar todos os meus trabalhos a tempo. Foi uma semana bem cansativa, mas finalmente, ontem consegui desfrutar do meu primeiro dia de férias - e do calor inglês!

Fui para a cidade com minha amiga J (usando vestido de alcinha!), passeamos pela High Street, que ainda não tínhamos explorado totalmente e fomos no castelo de Guildford, porque minha amiga ainda não o conhecia. Fiquei triste quando vi que as lindas tulipas que floriam os canteiros dos jardins tinham desaparecido. Os canteiros só tinham terra e nada mais. Porém, vimos um jardineiro e várias estantes de rodinhas espalhadas pelos jardins, com muitas mudas de plantas; aparentemente, petúnia é a flor da vez. Os campos onde ficavam os narcisos agora estão floridos com outras flores amarelas e brancas, bem pequeninas. Estou começando a entender como a primavera funciona.

Depois de passear, comemos num restaurante de sushi em que você senta no bar e os pratos de comida vão passando numa esteira e você vai pegando o que quiser; uma experiência interessante. Pegamos um ônibus para a universidade e encontramos outras amigas brasileiras indo para o gramado próximo ao lago. Sentamos na grama e apreciamos o sol de 20 graus - quente, quente, quente! Em seguida fomos para a casa da A, ali perto, e ela fez bolo de fubá e pão de queijo (nós ajudamos um pouco). Passamos o resto da tarde comendo, e quando vimos, já eram 19h. Mas o sol ainda estava alto! Nem vimos o tempo passar. Aliás, esse sol que só começa a se pôr às 20h, 21h é um perigo. A gente perde a noção do tempo total. Agora são 21:43 e o céu ainda está escurecendo.

Minha janela às 21:43
Hoje dormi a manhã inteira e à tarde fui me encontrar com A e as outras meninas no lago novamente. Dessa vez até fui de short, 23 graus! As meninas foram embora por volta das 17h, mas eu continuei lendo ao sol até ele se esconder atrás de uma árvore e começar a esfriar.

Pernas de fora! Feels like summer...
Ainda não sei pra onde viajarei nessas férias - se é que vou poder fazer grandes viagens, tudo vai depender do meu estágio, que ainda não tenho ideia de onde vai ser nem quando começa -, mas já vi que vai dar pra aproveitar bem este verão. Acho que eu sou feliz em qualquer lugar, contanto que tenha sol e boas companhias.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Primavera?

Quarta-feira, 29 de Maio, dia #119:

As semanas de revisão para os exames já acabaram e os ditos cujos já começaram. O último dia letivo é 14 de junho, mas como eu não tenho exames, só essays para entregar, entro de férias na próxima terça-feira às 16h, quando tiver entregue meus dois últimos trabalhos que estão consumindo minha vida social.

No domingo consegui encontrar uns amigos, mas fomos para a biblioteca da universidade estudar, mas aprendemos uma triste lição: biblioteca em época de provas fica lotada até de madrugada. Éramos quatro, não conseguimos encontrar um cantinho sequer (com tomada para os notebooks) nos cinco andares do prédio mais legal da universidade.

Fomos acabar no pátio do Chancellors, o pub da universidade, sentadinhos ao ar livre numa das mesas de madeira de piquenique que tinha no parque do Zé Colmeia.

Só não era no meio da floresta e nem tinha tanta comida. Só kitkat e barras de granola.
Quando ficou frio - quando as nuvens encobriram o sol - entramos no pub e nos sentamos num dos sofás laranjas berrantes e o plano era emendar os estudos em algumas cervejinhas, mas a preguiça venceu e como domingo o ônibus é limitado, a noite estava chegando e ninguém estava apropriadamente agasalhado (primavera, cadê?), achamos melhor deixar os brindes para o final dos exames e continuar os estudos em casa.

Na segunda-feira, mais um dia lindo (e raro) de sol. Acordei cedo e aproveitei para ir ao Tesco comprar coisas básicas que estavam faltando na minha geladeira - leite, ovo, pão, iogurte, etc - e passear um pouquinho a pé, ver a natureza. Meu passeio começou bem, avistei um coelho fofinho logo que saí dos limites do Manor Park, mais um mamífero da fauna local que vejo desde que cheguei (os outros foram esquilos e camundongos). O coelhinho atravessou o estacionamento do Royal Surrey County Hospital e pulou no meio dos arbustos enquanto continuei minha caminhada até o mercado.

O caminho que até algumas semanas atrás estava abarrotado de narcisos amarelos por todos os lados agora é só um monte de grama verde e flores secas. Fiquei bem decepcionada. Minha ideia de primavera é que as flores desabrochavam e ficavam lindas até a chegada do inverno, quando eram cobertas de neve. Não esperava que morressem tão cedo. Talvez alguém que tenha prestado mais atenção às aulas de biologia do que eu tente me explicar que as plantas de clima temperado são diferentes das plantas de clima tropical, mas não vai adiantar, eu vou continuar querendo que as flores daqui durem mais. Porque elas são muito mais bonitas e alegram os dias nublados e chuvosos que vêm junto com a primavera. As pessoas sempre pensam primeiro em flores, mas chuva é que deveria ser sinônimo dessa estação do ano.

Mas eu já devia esperar por isso, afinal, dizem que Inglaterra é sinônimo de chuva.


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O post de hoje é meio deprê sim, poque enquanto eu não terminar esses trabalhos não vai dar pra sorrir muito.